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Fim das bets não acaba com a dependência e exige atenção aos sinais de perda de controle

por Vicente Araújo

Com novas medidas contra as plataformas e campanha nacional de prevenção, psiquiatra explica como identificar quando o jogo deixa de ser diversão, os impactos na saúde mental e as possibilidades de tratamento

O avanço das medidas contra as apostas online no Brasil coloca em evidência um problema que não desaparece junto com as plataformas: os impactos deixados em pessoas que desenvolveram uma relação compulsiva com o jogo. Dívidas, conflitos familiares, ansiedade, alterações de humor e tentativas repetidas de recuperar o dinheiro perdido estão entre os sinais que podem indicar que a aposta deixou de ser entretenimento e passou a representar um problema de saúde.

O assunto ganhou ainda mais relevância nos últimos dias. Em 1º de outubro, o Ministério da Saúde iniciou uma nova etapa da Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online, reforçando orientações para que a população reconheça comportamentos de risco e procure atendimento. O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo.

Para o médico psiquiatra Dr. Alfredo Holanda, um dos maiores desafios é perceber que o problema nem sempre começa com grandes perdas financeiras.

“Muitas vezes, a família só percebe a gravidade quando aparece uma dívida importante. Mas os sinais podem surgir antes. A pessoa passa a pensar constantemente na próxima aposta, aumenta o tempo dedicado ao jogo, tenta recuperar aquilo que perdeu e começa a esconder quanto está gastando. A perda de controle é um sinal muito importante”, explica.

Quando a aposta deixa de ser diversão?

Entre os comportamentos que merecem atenção estão esconder ou mentir sobre o tempo e o dinheiro gastos com apostas, comprometer salário ou economias, tentar recuperar prejuízos fazendo novas apostas, apresentar mudanças no sono e no humor, abandonar atividades importantes e enfrentar conflitos familiares relacionados ao jogo.

Segundo Dr. Alfredo Holanda, outro alerta aparece quando a pessoa tenta parar, mas não consegue manter essa decisão.

“Quando alguém percebe que está tendo prejuízos, decide que vai parar e, mesmo assim, volta repetidamente às apostas, precisamos olhar para esse comportamento com atenção. Não é simplesmente uma questão de força de vontade. Existe um transtorno reconhecido e existem formas de tratamento”, afirma o psiquiatra.

O problema também não se resume ao apostador. Familiares podem enfrentar endividamento, desgaste emocional, quebra de confiança e conflitos dentro de casa.

“É comum que a família descubra o problema já em uma fase de prejuízo. Por isso, conversar sem julgamento e buscar ajuda profissional é mais produtivo do que simplesmente cobrar que a pessoa pare. Quanto mais cedo essa relação problemática com o jogo for identificada, maiores são as possibilidades de intervenção”, acrescenta.

Ceará também acende o alerta

No Ceará, o tema já passou a integrar ações de educação financeira promovidas pelo Estado. Em setembro, uma iniciativa voltada inicialmente a servidores e posteriormente ampliada para estudantes da rede pública e população em geral incluiu o combate ao vício em apostas entre seus eixos, ao lado da renegociação de dívidas e da prevenção de fraudes.

Um caso registrado no Estado também mostrou a dimensão do problema. Em julho, o Procon Ceará multou uma plataforma de apostas em mais de R$ 850 mil após uma consumidora que havia solicitado formalmente sua autoexclusão por compulsão conseguir realizar novo cadastro e voltar a fazer depósitos.

Dependência em apostas tem tratamento

O tratamento pode variar de acordo com a gravidade do quadro e as necessidades de cada paciente. A avaliação profissional é importante também para identificar condições que podem aparecer associadas ao problema, como ansiedade, depressão, alterações do sono, uso de álcool ou outras substâncias e dificuldades no controle dos impulsos.

A psicoterapia é uma das principais estratégias utilizadas no cuidado de pessoas com transtorno do jogo. Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental podem ajudar o paciente a reconhecer gatilhos, pensamentos e comportamentos associados às apostas e desenvolver estratégias para lidar com o impulso de jogar.

O acompanhamento psiquiátrico também pode fazer parte do tratamento, principalmente quando existem outros transtornos mentais associados. Medicamentos não são indicados automaticamente para toda pessoa com problema relacionado às apostas; a necessidade deve ser avaliada individualmente pelo médico, considerando o quadro clínico e eventuais condições associadas.

Outra medida importante é dificultar o acesso ao jogo, inclusive por meio de mecanismos de autoexclusão, além de organizar o acesso ao dinheiro e, quando necessário, contar temporariamente com apoio familiar para reduzir situações que favoreçam novas apostas.

“O tratamento não se resume a dizer para a pessoa simplesmente parar de jogar. Precisamos compreender os gatilhos, trabalhar a perda de controle, tratar condições associadas quando elas existem e reconstruir gradualmente aspectos da vida que foram afetados. Em alguns casos, o envolvimento da família também é muito importante nesse processo”, explica Dr. Alfredo.

Para Dr. Alfredo Holanda, esperar que as dívidas se tornem insustentáveis não deve ser o parâmetro para procurar atendimento.

“Se a aposta começa a determinar o humor, comprometer dinheiro destinado às despesas da casa, provocar mentiras, conflitos ou a sensação de que é preciso continuar jogando para recuperar o que foi perdido, já existe motivo para buscar avaliação. Quanto mais cedo houver reconhecimento e cuidado, melhor”, conclui.

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